Vales ‘esquecidos’ dos vinhos chilenos

Apesar de a produção de vinhos chilenos estar distribuída por 11 vales que ocupam quase todo o sul do território do país sul-americano, apenas alguns deles são conhecidos e seus produtos apreciados pelos consumidores brasileiros.
Talvez a região mais famosa de produção do Chile nos últimos anos seja a de Maipo, entre a capital Santiago e o litoral próximo a ela ??? notoriamente Valparaíso e Viña del Mar. Foi nesse vale que, nos anos 1990, o ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot redescobriu a uva carménère sendo catalogada pelos cultivadores como merlot. Ela havia sido considerada extinta na França, de onde é originária, no começo do século 20.
Os vinhos chilenos, porém, seguem uma rota que vai tornando a produção cada vez mais “fria”. Se em Santiago e em regiões próximas o clima é relativamente estável e úmido, por conta da localização geográfica com a Cordilheira dos Andes e com o oceano ao mesmo tempo, os vales mais ao sul são mais frios e molhados.
Um desses vales é o de Bío-Bío, nome também do rio já na fronteira austral entre Chile e Argentina, a cerca de 500 quilômetros de Santiago. Lá, o clima é frio quase todo o ano, com alta densidade de chuvas e de ventos até mesmo durante o verão. O solo é pedregoso e repleto de areia do mar, o que faz com que os depósitos orgânicos que nele se estabelecem sejam férteis e produtivos. Essa característica faz com que o cultivo das uvas necessite de um período de amadurecimento mais longo, resultando em bebidas ácidas.
“A vinicultura em Bío-Bío requer mais paciência, habilidades e determinação do que qualquer outro vale chileno. Um punhado de cultivadores aceitou o desafio e tem plantado na região variáveis próprias de climas frescos, como sauvignon blanc e chardonnay. Os primeiros resultados premiam o esforço: os vinhos de Bío-Bío são atrativos e contam com uma fresca acidez natural”, diz um artigo do famoso site Bodegas y Viños.
Vizinho do vale de Bío-Bío está o de Itata, com dias mais quentes e noites frias e úmidas, além de chuvas mais constantes no inverno. Assim como na sua fronteira, também tem um solo rico de minerais por conta da proximidade com o mar, mas a diferença é que em Itata há extensos bosques entre as montanhas da Cordilheira e o oceano.
Ao contrário de Bío-Bío ??? e da maioria dos vales chilenos ???, a região de Itata ??? responsável por 80% do mercado de vinhos no país ??? já não produzia vinhos desde 1920, quando um programa do governo há 15 anos incentivou os primeiros cultivadores a assentarem-se novamente na região. Antes, a facilidade encontrada em regiões mais quentes, como a de Maipo, fez com que Itata fosse esquecida. Curiosamente, foi nesses bosques que se começou o cultivo de uvas para a produção de vinhos no Chile, com os jesuítas europeus, no século 16.
“O Vale de Itata goza das melhores condições de clima austral para a produção de vinhos com um DNA único. Banhado pelos rios Bío-Bío e Itata, possui solo granítico, rico em minerais, que alimenta esses vinhedos orgânicos, com cercas construídas ‘en cabeza’ ??? que se irrigam naturalmente com água de chuva graças ao seu solo seco”, salienta o sommelier chileno Hector Riquelme. Hoje, é no vale se que produz dois tipos exclusivos de vinho: o cinsault e o país.
Por último, outro vale que também possui uma das primeiras explorações de vinho do Chile e da América do Sul é o de Maule ??? hoje a região que possui a maior área de cultivo de uvas do país, com 31 mil hectares de plantações. Ali, o clima já é mais fresco, com um solo ácido e com mais presença de argila que, se por um lado reduz a produtividade, por outro aumenta a qualidade da fruta.
?? a região ideal para produção dos tradicionais vinhos cabernet sauvignon, merlot e malbec. Segundo o site especializado Trekking Chile, o vale de Maule se divide em três zonas de cultivo: o de Rio Claro, o de Loncomilla e o de Tutuvén, este último com uma característica própria: o cultivo seco de vinhas, cuja única irrigação é a da chuva.

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