Os 40 são os novos 20 (P.S.: não é verdade esse bilete)

Gostaria de atirar o resultado do meu teste de testosterona na pessoa que criou a falsa afirmação de que os 40 são os novos 20. A médica me disse que o hormônio estava começando a cair só um pouquinho, mas já poderia causar, além de baixa libido, perda de energia, cansaço, entre outras coisas que não me lembro (nunca) de ter sentido aos 20. Isso aconteceu dois dias depois de o reumatologista me diagnosticar com artrose no pé direito. Enquanto ele explicava do que se tratava, eu reparava mais nos fios grisalhos que despontavam do meu couro cabeludo, vendo a minha imagem refletida na tela da videochamada. Quem falou mesmo que os “os 40 são os novos 20”?

Com vinte e poucos anos, eu trabalhava durante o dia e estudava à noite. A rotina incluía festas de faculdade, paqueras, viagens. Os 20 foram uma fase de muitas descobertas. A primeira transa, a direção do carro do pai nas mãos, o primeiro voo de avião. Na juventude, o vento bate mais forte nos cabelos e o sorriso sai mais fácil. O nível de preocupação com o futuro é baixo. Quase zero. Houve momentos difíceis, porém. Meu pai morreu. A primeira grande perda. O chão sai dos pés com a notícia. Daí tudo mudou. Mãe deprimida, mudança pra São Paulo, nova vida. Os 30 chegaram e com eles grandes paixões, viagens internacionais, morar no exterior, ascensão profissional, casamento, separação, recomeços.

Agora estou nos 40. Na realidade, com quase 48 anos, o que já me coloca naquela posição bem próxima da década seguinte. Já vivi, então, a maior parte desta. Pra mim, teve de tudo. Sonho de trabalhar na multinacional realizado, novas amizades e relações, sobrinhos deixando de ser crianças, casa nova, livro lançado. Mãe morta depois de anos de cuidados especiais. A experiência mais dura que já vivi.

Com esta rápida pincelada nas décadas, ainda não encontrei similaridades que me façam concordar com aquela fake news lá de cima. Se as comparações geracionais fossem pontuadas na Olimpíada de Tóquio, o placar estaria zerado. Ah, mas peraí. Talvez o autor ou a autora da frase do título estivesse se referindo sobre como os cuidados com a aparência física transformaram mulheres de 40 em jovens de 20. O tipo de pessoa que “ninguém diz” que já quarentou. É isso? Vamos aos fatos. A minha vizinha de frente está com 49 e não aparenta 29. Uma das minhas melhores amigas, apesar de linda como uma uva fresca, aos 42 anos, tem olhar de maçã madura. Minha cunhada é enxutérrima, já fez algumas plásticas, usa botox com frequência. Que idade ela aparenta? Já passou dos 40.

Minha médica chegou a me dizer uma vez que as mulheres de 40 correspondem, fisiologicamente falando, as de 20 do século passado porque, assim como foi com a minha mãe, as de 40 daquela geração já tinham filhos crescidos, viraram matronas, hipertensas e diabéticas. Hoje não. O Whey Protein faz parte da dieta; depois das 18 horas, só proteína; fritura uma vez ao ano, nas rabanadas no Natal. Na agenda, musculação, pilates e yoga. Sim, há um preço. E nem todo mundo paga, literalmente, por ele.

Quem foi mesmo a pessoa que afirmou que “os 40 são os novos 20”? Quanto a mim, vários indícios denunciam que este corpo que habito mudou. Mesmo sendo do tipo que manteve o peso e os longos cabelos, minhas bochechas ficam felizes às custas de visitas à dermato. As nádegas gosto de comparar com as ladeiras do bairro que moro, Perdizes, em modo descida. Estão declinantes. Conto isso com certo pesar na caneta. Perceber a mudança do meu corpo não é uma sensação agradável. Mas isso não quer dizer que busco voltar ao que já fui aos 20.

A antropóloga Mirian Goldenberg, no livro “O Corpo como Capital: Estudos sobre gênero, sexualidade e moda na cultura brasileira”, relatou uma pesquisa aplicada em brasileiras e alemães. As brasileiras têm uma aparência muito mais jovem que as alemãs, mas se sentem mais velhas e desvalorizadas, e revelam como a decadência do corpo as abala. Já as alemãs acham uma falta de dignidade uma mulher querer parecer mais jovem ou se preocupar em ser sexy, uma imaturidade e infantilidade incompatíveis com a maturidade esperada para uma mulher nessa faixa etária. Elas valorizam muito mais a realização profissional, a saúde e a qualidade de vida. Para elas, a vida deve começar aos 40, como dizem por aí. O que faz muito mais sentido do que tentarmos retroceder ao que já passou.

Até quando vamos procurar ser o que não somos ou o que já fomos buscando uma fonte da juventude? Até quando não aceitaremos que o tempo passa e que, além de tetas caídas, ele traz também outras vivências como estabilidade profissional, maturidade nas escolhas, felicidade nas pequenas coisas. Por que continuamos tentando voltar ao passado se é o futuro que nos aguarda? Os 20 são os 20 e os 40 são os 40. Bola pra frente em direção aos 50, 60, 70 e todas as alegrias que estas décadas devem nos trazer.

Nascida em Santos, Adriana Pimenta desde criança já tinha a leitura e a escrita em sua rotina. Lia os livros que vinham de brinde no sabão em pó e, estimulada por essas histórias, começou a colocar as suas no papel, adquirindo o hábito de escrever em diários. Cursar Jornalismo foi, então, um caminho natural. Trabalhou por mais de 25 anos com escrita e comunicação corporativa. Em 2019, concluiu a pós-graduação em Formação de Escritores de Não Ficção, pelo Instituto Vera Cruz, e decidiu colocar histórias reais no papel. É autora do livro Quando o futuro chegou e encontrei um pentelho branco, que está sendo lançado pela Primavera Editorial.

 

SOBRE O LIVRO

Para algumas mulheres chegar aos 40 anos significa o encontro com questionamentos que até então não existiam no cotidiano. Mas, onde buscar respostas para novas dúvidas e novos desafios existenciais? Se a pessoa em questão for uma jornalista, é provável que essa crise se torne uma reportagem ou… um livro! Esse é o caso de Adriana Pimenta, que transformou a crise pessoal na obra Quando o futuro chegou e encontrei um pentelho branco. Em uma narrativa sensível e bem-humorada, ela revela a trajetória honesta de uma mulher que enfrenta os próprios obstáculos rumo à maturidade. Em muitos momentos, a autora nos faz rir com os percalços de sua busca singular; em outros, faz chorar com as incertezas do processo. Mas, a principal reação despertada é chorar de rir com o mais humano dos relatos sobre o impacto do tempo em nossos corpos, em nossas mentes e em nossa vida.

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