“O Narcisismo e suas várias faces”, por Andréa Ladislau, doutora em psicanálise

O Narcisismo, tão falado e cantado em músicas como Sampa de Caetano Veloso – “…..É que Narciso acha feio o que não é espelho….”  -, possui, em sua maioria das vezes, uma definição bem simplória, buscando explicar apenas o culto ao belo. Porém, é muito mais complexo que isso. Você sabia que ser narcisista é viver com um transtorno de personalidade? Sim, é classificado como o Transtorno de Personalidade Narcisista, um desvio que afeta a mente da pessoa por completo. Isso quer dizer que o narcisista pensa, sente, percebe-se e interage com o mundo de maneira diferente da maioria das pessoas.

O Narcisismo é uma espécie de cegueira funcional, na qual a pessoa se vê impedida de sair do seu próprio mundo para enxergar o quadro geral, para contemplar o que é externo a ela. Seu mundo é construído de: egolatria (ego inflado), mentira compulsiva, manipulação, enganação, sedução, pornografias, traição, triangulação, egoísmo, individualismo, interesses, bajulação e holofotes.

Enquanto transtorno de personalidade diagnosticável, o narcisismo ocorre com maior frequência em homens que mulheres, geralmente se desenvolve na adolescência ou início da idade adulta e se torna ainda mais radical com a idade. Ocorre em aproximadamente 0,5 por cento da população em geral e em seis por cento das pessoas que têm problemas com a lei – e que têm dificuldades mentais/emocionais.

Primeiramente, todos somos, em alguma medida, egocêntricos. Uma vez que não podemos viver o mundo na pele do outro, tendemos a achar que tudo gira em torno de nós. Especialmente quando somos crianças. Com o tempo, porém, aprendemos que o mundo é muito maior e mais complexo do que aparentava e, aos poucos, vamos saindo dessa posição. Talvez nunca saiamos completamente desse lugar, mas conseguimos atingir um ponto em que isso não seja mais ruim nem evidente para nós e para os outros. Porém, alguns, por suas próprias questões, não atingem esse grau de amadurecimento.

O Narcisismo é marcado por padrões de comportamento que se refletem em algumas características de maneira exacerbada e, muitas vezes, com pouca possibilidade de controle. Isto porque o narcisista pode ser competitivo, considerar-se grandioso, humilhar quem discorda, ser arrogante e mentir ou distorcer fatos. Ou seja, é altamente competitivo em praticamente todos os aspectos da vida, pois acredita ter qualidades e habilidades especiais que os outros não possuem e retrata a si mesmo como um vencedor e todos os outros, como fracassados – visto que se considera grandioso e possui uma tendência a violar normas sociais. Apresenta ataques de estrelismo e até pode infringir a lei com consequências mínimas; e geralmente se comporta como se tivesse direito de fazer o que bem entender, independente de como isso possa afetar os outros.

O narcisista costuma envergonhar e humilhar quem discorda dele e parte para o ataque quando se percebe magoado ou frustrado, geralmente com direito a explosões de fúria. Sua arrogância, vaidade e soberba fazem parte de um jogo para conseguir as coisas da sua maneira.Uma outra característica para descrever o transtorno da personalidade narcisista é a incapacidade de reconhecer ou se identificar com os sentimentos e necessidades dos outros, o sentimento de grandiosidade, a noção de que tem direito a tudo e as tentativas excessivas de chamar a atenção. A mentira faz parte de sua vida. Mente/distorce a verdade em benefício próprio, põe a culpa nos outros ou inventa desculpas para os próprios erros, ignorando ou mudando os fatos que vão contra a imagem que construiu de si, além de nunca ouvir os argumentos baseados na verdade.

O narcisista é agressivo e presunçoso, exagera seu desempenho e sempre culpa os outros por seus fracassos. Quem sofre desse mal tende a monopolizar as conversas, diminuir aqueles que considera inferiores, insiste em ter sempre o melhor e fica bravo/impaciente se não recebe tratamento especial.Porém, o que se esconde por trás desse comportamento são os sentimentos de insegurança, vergonha, vulnerabilidade e humilhação – e para evitar essas sensações quando criticada, a pessoa reage com raiva ou desprezo e tenta humilhar o outro. É uma forma de defesa. Não raro, pode-se identificar a atração do narcisista pela religião, pela política, o esporte profissional e a indústria do entretenimento, porque o sucesso nessas áreas oferece um sem-fim de oportunidades de demonstrar sua condição de vencedor, gerando a admiração dos outros e confirmando sua autoimagem defensiva como a de um ser superior.

É claro que praticamente todos nós temos um ou mais desses traços sem necessariamente sermos diagnosticados como narcisistas.  Na verdade, ninguém é considerado narcisista por ser autoconfiante e conhecer suas próprias capacidades.

Estudos demonstram que existem algumas causas para o Narcisismo. Elas podem estar fixadas em um excesso de ênfase dos pais nas habilidades especiais da criança ou mesmo nas críticas severas aos erros e temores, criando uma necessidade intrínseca dela parecer perfeita e exigir atenção constante.Além de fatores genéticos e ambientais que também se destacam entre causas possíveis. Mas, embora o transtorno não esteja ligado a um grupo único de fatores, um número surpreendente de narcisistas extremos passou por algum tipo de trauma ou perda quando muito jovens, como o abandono dos pais. Ou seja, pode ser que um conjunto de fatores opressores e abusivos sirvam de gatilho para que os desvios narcisistas se formem na psique humana.

Portanto, diante do exposto, identificamos que pessoas que sofrem do Transtorno de Personalidade Narcisista são mais propensas à depressão, ao abuso de substâncias e até potenciais candidatos ao suicídio quando não confirmam a expectativa e as alegações de que é o melhor ou o mais inteligente. Com certa frequência têm baixa autoestima, pois sendo perfeccionistas, nada basta para satisfazer seu olimpo performático. Outro aspecto latente é a ansiedade, uma companheira constante por querer controlar antecipadamente cada evento que catapulte seu jogo de vitória. Suas relações são regadas de uma carência nem sempre manifesta, mas sempre exigindo que os outros atendam necessidades que nem sabem se podem ou querem atender. As pessoas são obrigadas a validá-los constantemente, independentemente do seu estado físico, emocional, mental e/ou espiritual.

A terapia e o diálogo com um profissional, ao longo dos anos, ajuda a pessoa a compreender o que há por trás de seus sentimentos e aceitar sua condição e potencial, aprender a se relacionar melhor e, como consequência, viver relacionamentos mais gratificantes. O diagnóstico é feito por um profissional de saúde mental que irá analisar os padrões de comportamento do paciente. Em seguida, aplicar técnicas para que o narcisista consiga identificar quando está agindo de maneira tóxica e manipuladora, além de ensiná-lo a conviver melhor em sociedade. O objetivo maior é promover o bem-estar, despertar a consciência para o problema e fazer com que a falta de empatia não guie o indivíduo em suas decisões e ações.

Enfim, se você convive de perto com um narcisista extremo, a dica é tentar ajudá-lo com o apoio de um profissional de saúde mental. Mantenha-se calmo e seja razoável, para não se envolver em batalhas desnecessárias. O famoso “dar um gelo” e ignorar suas “pirraças” são atitudes fundamentais para preservar o equilíbrio emocional. O narcisista precisa compreender o que há por trás de seus sentimentos e comportamentos, aceitar sua condição em potencial, aprender a se relacionar melhor e, como consequência, viver relacionamentos mais gratificantes. Além disso, saber se conhecer, se cuidar, se valorizar e não se projetar no outro são recursos que ajudam muito a não cair no jogo do narcisista.

Dra. Andréa Ladislau

Psicanalista

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