‘O bumerangue petista’, por André Henrique

Conclui-se, pelo noticiário e notas que o PT publicou, que a direção do partido escolheu o revide como forma de enfrentar o mal-estar gerado pelas prisões de seus companheiros. Cúpula e militância insinuam que o ministro Joaquim Barbosa é co-piloto de um golpe orquestrado pelas “elites” contra o petismo e que a ação 470 representa um julgamento de exceção.

A mensagem do partido cria um azedume nas relações do executivo federal com o poder judiciário e isso não interessa a quem pretende pleitear a reeleição ano que vem, tanto que a presidente Dilma trilha outra vereda ao ratificar que a corrupção deve ser combatida, doa a quem doer.  Tarso Genro e Olívio Dutra apresentaram isoladamente discordâncias em relação a determinadas jurisprudências utilizadas pelos ministros em seus votos mas repeliram a ideia de julgamento de exceção.
 
O descompasso entre uma fala e outra enfraquece a estratégia que visa deslegitimar o processo do mensalão. Reforçar a roupagem de mártires de Genoíno e Dirceu também não parece ser o mais inteligente porque a maioria da sociedade não está disposta a abraçá-los como a militância petista os abraça. Os que jogam pedras no STF são os mesmos que comemoraram os embargos infringentes aprovados pelo mesmo STF. Quando o Supremo decide favorável aos réus, ele é legal, quando decide contra, ele é golpista, – pode isso, Arnaldo? O rosário de incoerências complica a tentativa petista de jogar espuma no judiciário. 

Clamar por prisão domiciliar a José Genoíno por conta de seus problemas de saúde e levantar o debate sobre falhas no julgamento são coisas diametralmente opostas a sustentar que um processo de oito anos desenhado por várias mãos não passa de golpe das elites. CPI dos Correios (presidida por um petista), Polícia Federal,  Ministério Público e STF, centenas de testemunhas, montanhas de documentos e relatórios da Polícia Federal e do então Procurador-Geral da República, Antônio Fernando de Souza, indicado por Lula, apontaram a existência do mensalão que foi julgado pela Suprema Corte e os réus contaram com amplo direito à defesa e advogados que custaram milhões, sustentar que tudo isso foi uma trama urdida pela imprensa golpista parece bobo e não convence a maioria da sociedade. 

O jogo pesado contra o ministro Joaquim Barbosa reforça o discurso da oposição de que o PT apenas respeita as instituições quando as controla e, sendo assim, os petistas entendem que os ministros indicados por Lula devem fidelidade ao PT e não às leis. Noutra ponta o joguete inflama nas redes sociais a militância fanática a tratar Joaquim Barbosa como “negro de alma branca” a serviço das elites. Racismo arreganhado. O quê o PT, a democracia e o governo Dilma têm a ganhar com isso é um segredo para este que vos escreve. A sociedade brasileira, dinâmica e complexa, não comporta facilmente polarizações e radicalizações como Argentina e Venezuela comportam, alguns petistas ainda não entenderam isso.

O racha na esquerda pode isolar o PT futuramente. PDT ameaça apoiar Eduardo Campos. Parte do PDT que virou Solidariedade está com Aécio Neves. O PPS que um dia esteve com o PT hoje está com o PSDB e poderá cerrar fileiras com Campos. O REDE agora com o PSB representa setores da esquerda que abandonaram o petismo por falta de agenda programática e espaço. O PT ora se coloca como partido acima de qualquer suspeita e ora contra a justiça e a imprensa, as duas posturas colaboram com a fragmentação da esquerda e tornam o governo petista cada vez mais refém do centrão. O centrão se preocupa única e exclusivamente com espaço político e dará uma facada nas costas do PT no primeiro sinal de inviabilidade eleitoral que o partido apresentar.

O revide patrocinado pelo PT pode funcionar como bumerangue.

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