Artigo: Vitória maiúscula, por André Henrique

Não. Não se deixe enganar pelas aparências. Nem tudo que reluz é ouro, diria o outro. O resultado foi apertado, entretanto, a vitória de Dilma Rousseff foi maiúscula em face de circunstâncias conjunturais terrivelmente contrárias à candidata do PT. Vamos entender
As manifestações de junho 2013 derrubaram a popularidade de governadores e da presidente. No mês de maio do mesmo ano Dilma contava com aprovação de 60% e venceria segundo as pesquisas em primeiro turno tranquilamente. Com o advento dos protestos, com aparições constantes da presidente para se explicar para um emaranhado que não protestava necessariamente contra ela, num país onde presidente colhe louro e tempestades mesmo sem ter mérito e culpas, a popularidade da presidente caiu pelas tabelas. Depois, aos poucos, voltou aos prumos e fez água novamente devido ao clima negativo pré Copa do Mundo.  

O principal pólo opositor ao governo petista é representado por três ou quatro veículos de comunicação tradicionais de três ou quatro famílias tradicionais. E esses três ou quatro veículos de comunicação tradicionais dessas três ou quatro famílias tradicionais desconstroem Dilma Rousseff desde 2010 quando a mesma era tratada como poste. Os líderes do PSDB e da oposição, pautados por esta prensa, repetiram o mantra por quatro anos, perderam duas vezes seguidas para o poste, merecem ser chamados de quê? 
A prensa opositora conseguiu penetrar não só a tal “classe média branca” mas o senso-comum de pessoas de todas as classes com a veneta de que Dilma e o PT são patrocinadores de roubalheira. O processo do mensalão (pratica, na política, mais usual que bom dia pelas manhãs) e o caso Petrobrás (com tucanos envolvidos até a tampa) foram devidamente instrumentalizados para atingir o PT. Durante a eleição, Veja surfou em informações desencontradas do tal “Petrolão” para pautar Aécio Neves e Marina Silva. Com o barco de Aécio à deriva a três dias da votação, a revista adiantou a edição de sábado para sexta com a seguinte capa: “Lula e Dilma sabiam de tudo “.  O tudo era ilação. O TSE concedeu direito de resposta ao PT. Tarde demais. O estrago estava feito.
A entrada de Marina Silva na disputa depois da tragédia com Eduardo Campos anunciara dias difíceis para petistas e tucanos. Marina Silva tinha o capital político de 2010 e ocupava o espaço de terceira via. Aécio Neves entrou em queda livre e bateu a casa dos 14 pontos. O mineiro se viu isolado e fadado a pagar o maior mico tucano da história. As pesquisas apontaram Marina Silva empatada com Dilma no primeiro turno e à frente da petista no segundo. Tragédia anunciada.

A candidata do PSB se desfez de convicções de esquerda que fizeram dela a patrona da esperança e rendeu-se ao ruralismo e ao conservadorismo pentecostal. Fatal. A candidata enrolada num novelo de incoerências e nos fios de cabelo implantados de Silas Malafaia virou saco de pancada das esquerdas. Marina Silva colaborou com a desconstrução imposta pelo PT contra sua candidatura. Caiu. Dilma cresceu um tiquinho e Aécio Neves recuperou os votos perdidos para Marina e o patamar tucano de eleições anteriores, com isso, o mineiro alcançou o segundo turno com o bico encostado na nuca de Dilma Rousseff. 
O empate técnico persistiu nas duas primeiras semanas de segundo turno. Com a avaliação positiva da presidente Dilma em crescimento, o PT virou o jogo na semana derradeira. A propaganda do PT vendeu bem os ganhos reais dos brasileiros nos anos de petismo e procurou assustar o povo com o fantasma do neoliberalismo ao qual tucanos ainda se agarram. Lula entrou em campo e como sempre fez a diferença. O PT venceu nas plagas mineiras onde a maioria disse N??O ao PSDB ao dar a Fernando Pimentel a vitória em primeiro turno e vitória a Dilma nos dois turnos. Vencer em Minas foi o gol de placa decisivo.
Aécio Neves obteve o melhor resultado da oposição desde 2002. Resultado esperado face ao processo de desconstrução sofrido pela presidente desde 2010 e ao clima mudancista turbinado pela mídia por mais de dois anos, com direito a agigantamento do fantasma da inflação e terrorismo do mercado especulativo. Mais: o tucano perdeu com regalias que seus colegas de partido não tiveram em 2002, 2006 e 2010. Aécio foi derrotado com apoio do candidato da terceira via no segundo turno, com a economia em baixa e com aliados a pularem do navio de Dilma para o seu. E pior: Aécio perdeu em casa. Reitero: nem tudo que reluz é ouro.
?? importante frisar os desacertos da condução política do governo Dilma. O caráter centralizador da presidente jogou PTB e fatias importantes do PMDB e do PR no colo da oposição e isso custou deserções em palanques regionais que turbinaram a votação de Aécio Neves. O tempo também foi inimigo do PT. Os doze anos no poder geraram fraturas na frente de esquerda e levaram o PSB a concorrer à presidência da República, a rivalidade criada com Marina Silva durante o processo eleitoral jogou a maior parte dos “socialistas” no colo do tucano. Os canais de diálogo do governo com empresariado e movimentos sociais também falharam.  

Em suma, Aécio Neves contou com as melhores condições que um candidato de oposição teve desde 2002, não venceu. Dilma enfrentou suas limitações de comunicação e o amplo contexto negativo já descrito, por isso sua vitória foi maiúscula. Os desafios do governo para os próximos quatro anos também são gigantescos. Mas isso é assunto pra depois.

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