Prefeitura de Americana conserva ideologia da Casa Grande. O prédio não, por V Ghizini
Wednesday, January 11, 2012 6:46:32 AM
Lugares da memória são vestígios materiais, monumentos, obras arquitetônicas, prédios e objetos por meio dos quais a sociedade constrói suas narrativas históricas. Dos grandes fatos sociais aos pequenos acontecimentos cotidianos, a memória é filtrada por expectativas, projeções, paixões e posições políticas. Nenhuma memória, portanto, é neutra.
Assim, quando tratamos da gestão pública dos lugares da memória, cabe pensarmos em duas dimensões a) a preservação e conservação do espaço físico e b) a relação crítica com esses espaços. A primeira está ligada aos projetos de tombamento, preservação, recuperação e uso que devem ser articulados e geridos pelo poder público. A segunda, às possibilidades de ocupação e diferentes apropriações do contexto que o espaço evoca.
No caso específico do Casarão do Salto Grande, a verba de R$ 620 mil destinada pelo Ministério do Turismo haveria de dar conta dessa primeira etapa. Até agora nada foi feito. Nem mesmo a pressão da sociedade civil sensibilizou a Prefeitura de Americana.
Tão preocupante quanto essa situação, no entanto, é a ausência de qualquer discussão que vá além de manter o prédio em pé. Lembremos que a abertura dos campos de concentração nazistas para visitação pública, na Europa, foi acompanhada por um intenso debate para que o espaço não se tivesse função celebratória, mas para que o conhecimento do passado evitasse a repetição dos crimes que ali ocorreram. Aqui mais perto, em São Paulo, o “Museu da Resistência” foi criado no prédio de uma antiga prisão utilizada pela Ditadura civil-militar (1964-84) para encarcerar, torturar e assassinar presos políticos. É exemplo formidável de como o espaço da memória, que em muitos casos serve para justificar a opressão do passado, pode ser usado para que “não ocorra nunca mais”.
Se não cabe exigir da Secretaria de Cultura e Turismo conhecimento da extensa bibliografia sobre o tema, é de se lamentar, no mínimo, a falta de habilidade política para se estruturar projetos que incluam a noção de pertencimento e crítica da memória da cidade. O Casarão Dr. João da Silva Carrão (e seu museu) é um espaço riquíssimo para a população de Americana observar esteticamente. Mas é adequado também para questionarmos as estruturas autoritárias e desiguais de nosso passado. Quando esquecemos a senzala reproduzimos por omissão a ideologia da Casa Grande.
A Prefeitura de Americana alia o que há de pior em sua política para a memória: a má aplicação de recursos públicos com o pensamento conservador.
Vinícius Ghizini, 24 anos, é formado em História (USP) e mestrando em História Social pela Unicamp.