“Que o perdão seja sagrado, que a fé seja infinita. Que o homem seja livre, que a justiça sobreviva.” Ivan Lins e Vitor Martins.
Há dias prostrada num corredor do Hospital Municipal de Imperatriz, no Maranhão, Mayara Coelho Francelino chegou a balbuciar ao pai: “Eu tenho muito medo de morrer com oito anos”. Não houve tempo para outro apelo; depois de ter contraído meningite e permanecer à espera de uma vaga na UTI, ela veio a falecer. Além dela, outras 16 crianças também morreram nas últimas semanas, devido ao caos na saúde pública de Imperatriz, situação não muito diferente no restante do Estado governado pela filha do ex-presidente José Sarney.
Ironicamente, na mesma madrugada em que Mayara partia, uma multidão bradava em frente ao fórum de Santana, em São Paulo, exigindo punição no caso Isabella Nardoni. Mais irônico ainda o fato de que maranhenses vieram, especialmente para pedir justiça. Um Jornal da capital publicou: “Aldaires Tocantins e Belonice Pinheiro são de São Luis, Maranhão, vieram pelo mesmo motivo: querem justiça. As duas irmãs estão em frente ao fórum de Santana desde as 10 horas.”, anunciava a reportagem.
Evidente que o caso Isabela mereceu nosso repúdio e uma condenação irrefutável aos seus algozes; mas é preciso que olhemos além para constatar que o cenário do crime continua erigido em cada esquina, seja na selvageria de pais ou na disseminação do crack – epidemia que rouba a infância e a esperança de tantos filhos – no abuso sexual e na exploração do trabalho; na prostituição de meninas que deixaram as brincadeiras de boneca bem cedo para servirem aos seus clientes, e outras tantas formas desprezíveis que alimentam o crime.
Imperatriz é apenas um pequeno exemplo do que ocorre em todas as regiões do país: descaso com o dinheiro público e omissão de socorro aos cidadãos. Quanto à saúde no Brasil, a Constituição, em seu artigo 196 dispõe expressamente que é dever do Estado adotar políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, fato que requer além da obrigação, um mínimo de respeito com a vida humana.
Na última crise econômica o governo despejou bilhões de reais no sistema finanenceiro, visando salvaguardar a saúde dos bancos e assim garantir a solidez econômica frente à turbulência internacional. Portanto, falta de recursos jamais deverá servir de justificativa para a inoperância e falta de escrúpulos dos governantes, quando o assunto for saúde pública.
Que a morte de Isabella, assim como a de Mayara jamais saiam da nossa memória, porque se faz urgente o grito por justiça, quer seja pela brutalidade de pais que jogam seus filhos pelas janelas de edifícios, ou pela negligência de governantes que fingem não conhecer a realidade do povo. Que a vida seja além do olhar perplexo frente à miséria e a dor de tantos homens, mulheres e crianças; e que a justiça sobreviva além dos fatos e da nossa própria vontade em se fazer justiça.
Amauri de Souza, Jornalista e autor de Retratos do Tempo.
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