Fotografias a olho nu
Por Soraya Ruffo- Caminho na rua principal, em suas vicinais, passo em todas as ruas possíveis. Encontro cenas e pessoas com realidades extremas... extenuantes: um menino, pássaro, sem camiseta, num frio de 10 graus, gesticulando para um homem do outro lado da rua. Sem resposta. Sem perspectivas... Imagem real, na cabeça surreal de gente que passa alheia ao frio, à dor, ao caos, do próximo, do vizinho, do filho, da tia... da balconista da papelaria.
Saio do carro e dou de cara com uma mulher, mais de 50, e uma garotinha no colo, vestida todinha de cor de rosa (sua unica roupa?), prostradas em frente a uma grande loja. Eu também observo e sigo, sem tampouco, como todos, pensar na ausência de tudo, no medo e no futuro cego das duas. Quando penso em voltar, elas já não estão mais lá. Em frente a essa moldura dos tempos, um cartaz que diz "Não doe dinheiro. Ligue para o blablabla". Mas se eu e você não doarmos, quem vai doar o que, pro menino sem camiseta, pra mulher sem rosto e pra menininha cor de rosa???
Mais adiante, uma cachorrinha com as tetinhas inchadas, cara de dor, com sede, está às voltas com 5 filhotinhos, todos mesclados preto e branco. Guarida nenhuma, nem pro menino, nem pra mulher e a menina, nem pra cachorrinha com seus filhos.
Então, sinto uma tristeza tão profunda que me tira o folego. Respiro pra buscar o ar , porque não posso carregar todos! Tenho os meus, mas, como você, posso abrandar uma saudade, posso levar conforto pra quem está magoado e solitário, posso reservar roupas de frio para quem não tem nem pra si, que dirá para um idoso seu, ou pedir aos amigos que façam côro e se solidarizem, mas acho pouco pra tanto problema que não é possível ser resolvido.
Por um momento eu penso em fugir das ruas. Penso em fechar os olhos e só olhar pra dentro, como fazem milhões de pessoas. Penso em transformar as lágrimas do menino, da mulher com sua pequeninha e da cachorrinha, em pequenas pedras coloridas e adornar o coraçao duro de quem passa, não pára, não pensa e nem sequer sabe que a pobreza existe bem ao lado e tão próxima, que até esquenta nossos rostos.
Penso que pobreza tão grande quanto essas todas, é não participar da vida de quem precisa tanto...
Pobreza que alguns carregam na alma, com os bolsos cheios de ilusão de que são bons e ainda assim reclamam da cor de suas camisas, por seus filhos não escolherem amigos ideais e porque suas paredes não estão altas suficientemente, para cegarem ainda mais seus olhos.
Aos puros, uma confortável cadeira no reino dos céus.
Aos devoradores de bondade, minha e sua compaixão